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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Minutos Triturados


Leva-me o tempo
Nos teus calendários dos dias balbuciados
Labutados
E perdidos nas tardes quentes
Cada dia riscado
A noite sonolenta de pálpebras
Insones
Ainda o cuco vem avisar
Que o ocaso foi embora
E a aurora de um novo tempo
Vai chegar

Leva-me oh tempo
No teu relógio que soluça
Cada segundo
Teus minutos que vão dilacerando
Minha pele
Mudando os desígnios do meu coração

Como eram belos os tempos
De outrora
Tinha o sino da igrejinha
As andorinhas de verão
Meu coração apaixonado
O canto da sabiá
Os barrancos inconsistentes
E o grande Deus onisciente
Transcendente
As papoulas vermelhas
E o belo luar
E o tempo demorava passar

Hoje o amor é apenas um conceito
Nos versos de um poema em cima
Da cômoda
O relógio desgastando a tessitura
Da carne
E a vida passa nas hélices
Do liquidificador
E o luar um poema tecnológico
Teleguiado pelo computador





quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Tecelão de Estrelas


Uma ave faz um ninho
Tecendo com seu bico afiado
Amolado nas canções
Seu ninho de galhos retorcidos

Entrelaça cada um
Sem parafusos em pleno luso
Verão
O martelo e o prego
É uma arte conceito
Uma reflexão filosófica
Atravesso o viaduto
Mesmo com minha ortodoxa
Ocidentalidade
Ainda caço borboletas
O gás carbônico ainda toca
Nas minhas sobrancelhas assustadas
E nunca deixei de cantar siriá
nem de riscar o sol

Vou descobrindo onde os pássaros
Fazem seus ninhos
Com minha sombrinha vou brincando
De chuva
Um pardal fez seu ninho nas luzes
Do semáforo
A rolinha fez seu ninho no hibisco
De rubra rouca lokas papoilas doidivanas
Que levam o dia se embalouçando
Aos ventos
Comendo flocos da luz solar

Lembra mano
Quando conjugávamos o verbo amar
Nossa aldeia parecia linda
Mas eram encantadoras suas noites de luar
Suas fogueiras de São João
Elas me levaram ao evangelho de João
Uma cuia de tacacá
Uma de patuá
Um cálice de aluar
E as proibida flores que brotavam livres
Foram incriminadas
Eu vi a guerra do Vietnã na revista
rasgada


As estrelas nos diziam tudo
Eram as nossas guias
Nos rios
Igarapés
Igapós
Do outro lado da ponte
O poente encantador
Tinha o verão das andorinhas
Tempo das lendas
Tempo dos curumins procurarem
As cuiatãs
Seus seios de pele de avelãs
Dos botos namorarem as meninas
Tempos das jujubas coloridas
Bombons de hortelã
Tempo em que aquela bateria
Passava o tempo bumbando
Meu coração
Acedendo minhas pupilas


Em Cala ma não tinha automóveis
Nem muitas carroças
Mas lá eu vi a pá e a enxada
Dependurada
Descansando
E amolando sua laminas
Na luz do luar
Nem sequer belas carruagens
Mas tinha as ruas floridas
Aprendi a amar uma rua
Que depois foi as minhas lembranças
De morangos
Que nos leva as pontes
Onde do outro lado mora sua paixão
Embaixo o igarapé murmura
Sua canção
Por não ter moinhos
As águas nunca voltaram
Mas quem sabe alguma tempestade
A traga de volta

Do outro lado é que guardo
Meus anzóis meus poéticos
Caniços
Que pescaram muito mais luar
Que peixes
Minha lanterna minha lamparina
Onde agora dorme meu violão
Minha Royal onde nas suas fitas
Negras moram a memória dos meus
Poemas

Sempre tive minhas ruas de morangos
Meus campos de framboesas
Sempre Deus me deixou seguir o meu caminho
Por que ele sabe que eu nunca vou tirá-lo
Do meu pensamento
Aprendi viver com meu cotidiano
A geometria de Descarte
A geometria de Spinoza
A geometria de Hegel
A vida é uma sinfonia
Nós é que não a tocamos direito
Nem conhecemos a diáspora das borboletas
Nem agradecemos pelo doce mel
E o fermento dos pães
Nem agradecemos o maná que cai do céu
Num deserto deslumbrante
O sonho era beber o leite da terra prometida
Comer as tâmaras adocicadas cálido sol
Tomar a água que brota da pedra
Dedilhar uma cítara

O poeta é apenas um cultivador
De estrelas
É um namorado que recita verso
Para seus corações
E elas acreditando nestas loucas paixões
Vem plantar hortaliças no teu jardim

O amor sempre vai bem
Numa xícara de jasmim
E as tardes em Calamas
Entre manguitas dolcitas
E cantos de japim




terça-feira, 14 de outubro de 2014

Cigarras Ciciam o Verão


ouvi a cigarra afinar
os seus acordes 
tecer suas sinfonias
e balbuciar sua canção
naquela tarde azul de verão
as andorinhas riscam no céus
nos pedaços de nuvens brancas
suas partituras
na maior altura
asas de eternos bemóis
o sol rega com seus raios
cálidos amarelados
seu reinado de planetas
e luas
religião para os girassóis
para os lentos elípticos
caracóis
e vós o que sois 
neste mundo de muitas estrelas
galáxias distantes
mundo de muitos sóis 
o que é o teu instante
mas o que importa é abrir
a janela
regar as margaridas
cultivar as violetas
e dialogar com a rosa
sobre o mistério do amor
é debulhar os acordes
do violão
modelar os versos
e compor um refrão
tarde sonolenta

em que morre o cigarro
queimando entre os dedos
morre a cigarra cantando
enquanto a formiga cultiva
o seu canteiro
e os cogumelos brotam
nos mugidos das vacas

sexta-feira, 3 de outubro de 2014



                          Ao poeta Mário Gomes




Vaga
       vago
              andarilho
O poeta
              maltrapilho
Caminha
              divaga
Traga as gotículas de luz
Do sol
Os raios translúcidos
Do luar
Escreve sua saga
Nas ruas de Fortaleza

A vida que passa
Na praça
Nas vitrines
Nas vidraças

Escreve seus poemas
Com o cristalino do olhar
Com a grafite do seu coração
Com a canção dos pássaros
Com pedaços da chuva
Com as flores do flamboyant
Pelos boulevard de antigas
Jabuticabas
E framboesas

Tempo em que meninas
Passeavam com suas sombrinhas
De joaninhas
E meninos passeavam de velocípedes
E os poetas tinham um cravo branco
Na lapela do fato

Agora é o tempo de versos sombrios
E o poeta de fato
Esta numa mesa tecendo um verso
Que verso! Fotografado...



sábado, 20 de setembro de 2014

Exaustas Pálpebras


A noite desenrola um poema
Do Zola
Nas pálpebras cansadas
Dos meus olhos

Lá fora o luar devora
Versos sonolentos de outrora
Do tempo em que os cata-ventos
Dialogavam com as lavouras
E os vaga-lumes eram estrelas
E as constelações eram galáxias

Tempo em que os grãos declamavam
Parábolas
Metonímias dos centeios
Moinhos celeiros
O permeio do fermento
O sentimento dos esteios
Que delimitam as plantações
E os pássaros vestiam os mantos
Dos céus
E nele escreviam suas partituras

Tempo em que as andorinhas desenhavam
O verão
Para nele a cigarra cantar sua canção
A chuva molhava as sementes
O trovão acordava os grãos
Que engravidaram
E germinavam num lindo botão
Numa bela rosa

E a vida vai embora
Cruza a ponte
Não espera o tempo
Vai tornado tudo passado
Uma saudade incontornável
Um pretérito que podemos conjugar
Mas nunca mais vivê-lo




sábado, 13 de setembro de 2014

No Tempo dos Japins




Em Calama os sonhos se confundiam
Com a realidade
Pensava que os pássaros nasciam
Das árvores
Que o ninho do japim era um fruto
Que de dentro dele saiam
Aqueles pássaros amarelos e negros
Com aquele canto sustenido
E asas de eternidade

Pensava que o sol no crepúsculo
Mergulhava no rio Madeira
Profundamente
Prendia a respiração
E com suas guelras de fogo
Emergia no amanhecer do outro
Lado
Trazendo os pássaros de um reino
Encantado
Acordando os girassóis
E as espigas dos milhos dourados

Pensava que as estrelas
Eram vaga-lumes
Mas uns dias viraram galáxias
E que meu barquinho de papel
Levaria-me pra longe
E que ela seria meu grande
Amor
Que hoje desbota numa fotografia
Em preto e branco

Ainda não tinha tomado
Minha primeira coca&cola
Nem voado nas asas da Panair
Escutado uma ópera
Nem lido um verso do Bandeira

Pensava que as juras de amor
Feitas nas labaredas da fogueira
Tremeluzentes
Eram para sempre
Não havia lido à metafísica
De Aristóteles
Nem Teeteto
E que os caminhos do ocidente
Apagariam minha vila
Do mapa






quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Melro



Eu era as tecla daquele piano
Molhado de luar
O gole de conhaque requentado
Pelas estrelas
A voz rasgando o jazz de pura
Paixão
Trazia o canto do sabiá
Na lapela
As pétalas na cigarreira
Na algibeira
O melro que cantou no alpendre
Da tua casa
Depois foi embora e nunca mais
Voltou
Eu era as cordas do violoncelo
Balbuciada pelo crepúsculo
O osculo do colibri na roxa
Papoula
Que balouça nos cabelos
Do vento e das tempestades
Eu era o espantalho cultivando
O milharal
E aprendendo a gramática
Dos corvos
E fui com os instantes vividos
E as migalhas das metafísicas
Tornando-me amante da solidão
E polindo o nervo do meu olhar
Para contemplar melhor
A eternidade