Seguidores

domingo, 17 de agosto de 2014

Poeta Marginal


Tudo deu errado na minha vida
Papai queria que fosse engenheiro
Construísse prédios
Fizesse pontes naqueles rios
Mas me tornei um poeta
Marginal
Um bardo violado
Transeuntes das periferias
Escritor de muros abandonados

Mamãe queria que me casasse
Com ela
Estudante da Escola Normal
Filha de dona Maristela
Mas me juntei com Maria Juana
Quase deu rolo
Quase de cana
Estranha cara de melenas
Desgrenhadas
Sem endereços adereços
Estranhos de estanho
Tatuagens
Outras viagens

Quando morri fiquei sem epigrafe
Sem túmulo
Sem testamento
Sem missa
Por que meu corpo não foi encontrado
Minha alma perdida
Enluarei-me


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Lunático


Eu sou o verme que passeia
Na lua cheia
Que se banha nas marés
O verso do poema que some
Antes que você o leia

Eu sou o lobo da estepe
Que vagueia silenciosamente
Nas madrugadas de lua
Não uiva
Nem boceja versos
Para não acordar o homem
Que mora em mim

Se ele acordar vai querer
Refletir a metafísica de Aristóteles
E a substancia de Spinoza

É melhor o caminhar no silencio
De suas patas
Sem tocar nas latas ocidentais
O farejar indistinto
O cio
O instinto
E o uivar abstrato

Que meu homo sapiens acordado
Com sua xícara de chá fumegante
Suas drágeas brancas
E seus silogismos absolutos



domingo, 27 de julho de 2014

Versos Insones

Sou o poeta que adormece
Nos braços da lua
E acorda no bico do bem-te-vi

Antes de adormecer apago
Minha lamparina
Mas deixo minha lanterna
Verde ao lado
E os vaga-lumes acessos
Para não me perder
Na escuridão

Pois às vezes as estrelas
Deixam-me na mão
Nas noites frias se vestem
De nuvens escuras
E vão dormir ocultas
Na imensidão

E eu minúsculo verme
Repleto de razão e uma severa
Glaucoma
Acabo me ferindo com objetos
Geométricos
Pesadelos noturnos
E sentimentos que me faz tropeçarem
Apesar das lentes polidas
Dos colírios
E das drágeas brancas

A noite gosta de confundir meu olhar
Remoer minhas paixões
E acender loucas alucinações



sábado, 19 de julho de 2014

Orvalhos Insones





Nesta noite de bruxuleante
Luar
Soníferos coloridos alopáticos
Um gitane fumegante
Minha negra Royal
A vitrola magoada pelo tempo
Uma xícara de chá da flor
Proibida
Eu e meu camaleão
Ao relento
Nesta profunda solidão
As pálpebras mortas de sonos
E estas variações mostram
Que o negro e o branco
Vive uma profunda harmonia
E esta existência sem sentido
Tem o lado belo
É assim que perco o sono
E levo mais uma noite perdida
Momentos que caio até
Em oração
E choro
Estas lágrimas que caem
Nas minhas elegias
São versos
De puro sentimento do meu pobre
Coração
E meu violão de poucas notas

Fica ali calado

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Navalha desdenha da Morte


Risco meus versos em guardanapos
Nas bordas dos pratos
Nos azuis deste céu
No ventre da estrelas que chegam
Anoitecidas

Arrisco na vida
Viver é perigoso diz o poeta
Amar é um verbo intransitivo
Aboliram o trema
As consoantes intervocálicas
E no fim eu estou sozinho
Na mesa desta taberna
Filosofando com as migalhas
Filosóficas

A xícara gélida repleta de não café
¼ de gim destilado no limão
E uma profunda desilusão
O romance ficou órfão
Meu ser é pura solidão
Ainda uma canção me consola
As cordas de náilon solam
Uma velha bossa nova
E meu mp3 aos pedaços desenrola
Variações de Goldberg
Porque a madrugada é longa
O mar canta aos meus ouvidos
Ária de antigas nereidas
E este luar macilento
E estas drágeas brancas
Deixam meu olhar insone
Atordoado nesta existência
Nesta noite de elegias
E bravias procelas
A vida morreu na própria
Vida
A morte em carne viva



              Luiz Alfredo - poeta

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Bob Marley Redemption Songs Live in studio acoustic - Lyrics





A liberdade é um conceito que não aceita
Nenhuma restrição
Nada pode tocar na sua esfera
Que não deixe seqüelas na sua amplidão

Alguma coisa tenta copiar e viver
Sua determinação
Um albatroz a sós na solidão do céu
Azul
Uma gaivota sobre a amplidão do mar
A conjugação de o verbo amar no subjuntivo
Presente

Impregnar-se pelos aromas das tangerinas
Riscar algumas equações do arco-íris
Na areia branca de uma praia ensombrada
De coqueiros e sabiás
Conversar com uma flor proibida
Com os olhos alucinados pelo seu sabor
Escutar uma canção com versos
Quase uma suplica
Uma profunda oração
Em que os acordes rasgam o coração
Balbuciada numa linda declamação
É aproximar-se da definição
Polida pelo filósofo que polia lentes
Para o olhar
Aproximar-se deste conceito
Que é uma profunda expressão
De Deus



                    Luiz Alfredo - poeta

sábado, 5 de julho de 2014

Minha Louca Paixão


Com a moça da alfazema
Ia para a novena
E para o cinema
Foi meu primeiro perfume
Minha inextricável paixão
Que adentrou minhas entranhas
Olor minha alma
E machucou meu coração
Perfumava minha tatuagem
Era o estribilho dos meus poemas

Este incontrolável amor platônico
Apenas arrefeceu quando conheceu
O telúrico patchuli nas melenas com nódoas
Dos cantos da graúna 
Ornada com uma rubra papoula
Em suma
E o hálito de alcaçuz e canela
Dos lábios dela

Outros extratos entraram 
Em minha vida
Vindo das peles jardins lavouras
Advindos das vitrines
E janelas
Mas eu já caminhava pelos nenhuns
Caminhos do ocidente
Minha aldeia era apenas uma fotografia
Em preto e branco
Quase sem contornos...

                          
                                  Luiz Alfredo - poeta