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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

No meio do meu Ureter

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra  
tinha uma pedra no meio do caminho  
tinha uma pedra  
no meio do caminho tinha uma pedra. 
Nunca me esquecerei desse acontecimento  
na vida de minhas retinas tão fatigadas.  
Nunca me esquecerei que no meio do caminho  
tinha uma pedra  
tinha uma pedra no meio do caminho  
no meio do caminho tinha uma pedra 

                        Carlos Drummond de Andrade - poeta
                            
En Revista de Antropofagia, 1928 
                                     Incluido en Alguma poesia (1930)

 


No meio do meu ureter tinha uma pedra
tinha uma pedra de 1,20 cm
tinha uma pedra no meu ureter
no meio do meu ureter tinha uma pedra

Nunca esquecerei deste acontecimento
nas minhas vias urinárias tão machucadas
Nunca esquecerei que no meio do ureter
tinha um cálculo renal
tinha um cálculo no meio do ureter
no meio do meu canal um inerte cálculo

              
                                        Luiz Alfredo - poeta

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Ser Poeta - Florbela Espanca - Cantado por Luís Represas



Era uma flor tão bela
Poeta
Florbela
Alama de versos apaixonados
Em sonetos soletrados
De paixão
Versos metrificados
Bordados
Mas arrebentavam as bordas
O tempo
As épocas
E viraram belas canções
Violeta que violentava
Jardins
Pomares
E a mim
Crisântemos roxos
Lágrimas do Alentejo
Vaporosa
Florbela Alma da Conceição
Nem o veneno apagou twu semblante
Nem teus versos lusitanos
Insanos
Elegantes
Versos que levaram minha alma
À perdição
A balbuciar uma paixão
Incompreendida
Levou-me a uma vida perdida
Embriagada de versos
A uma conturbada canção
De amor
Uma magnólia na lapela
Poemas de pura perdição






terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Uma Tarde de Blues


Era só um blues
Que saia do radinho de pilha
Pela janela de cortinas floridas
Mais enchia aquela tarde crepuscular
De acordes
E versos amargurados
Letalmente lindos
Por entre  os decotes
Dela
Quebrando as aldravas das cancelas
As babeis dos quintais

A noite chegava
Com seus vaga-lumes meio-escuros
Meio lumes
E o luar perplexo
Não sabia o que dizer
A noite agora era um blues
Estrelado
Varando madrugada
Adentro
Deixando os corações
Uma pilha de nervos alumbrados
Emblueserados

As pilhas daquele radinho
Pareciam que tinham sido carregadas
Pela eternidade
E aqueles blues cantados
Por uma sinfônica
Mas era apenas um negro homem
De dedos longos
Lá do médio Mississipi
Com seu machucado violão
E sua gaita amassada
Com sua blusa desabotoada
E seu coração bluesado





terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Versos Outonais

Escrevi meus poemas nas folhas
De outono
Perdi o sono
Perdi a noite
Mas ganhei dialogo com as estrelas
E com o luar
Singrei o mar
Bebi suas ondas 
Respirei sua maresia
E escutei versos ancestrais
Dos teus temporais ultra-românticos
Dos teus vendavais nos corações
Apaixonados
Escrevi outros
Num barquinho de papel
Depois o coloquei naquele córrego
Ocidental
Tem tempos que nosso coração
Torna-se vazio
E nossa boca não pode dizer
Mais nada
Nossos poemas perdem-se entre 
As folhas secas ao vento
O poeta deve saber que escrevemos
Versos para os espantalhos do campo
Depois para os cata-ventos
Afinal quem melhor entende nossos versos
Quê os cata-ventos
Ela nem sabe tantos dos meus versos
Principalmente o quê escrevo sobre a pele
Do rio
Deixe os poemas que eles sabem desenrolasse
Sabe dizer-se nos muros
Nos guardanapos
Nos papéis de embrulhos
São meus poemas sombrios
Escaparam das garrafas 
Do meu naufrago
Do roteiro do meu albatroz
Do meu navio
Vou pregar com os gritos
Destes corvos
Na noite de um belo luar

domingo, 13 de dezembro de 2015

Escura Noite


Caminho por uma noite
Escura
Estrelas apagadas
Ruas sem iluminação públicas
Apenas lapsos de faróis
De esparsos automóveis
Nenhum lume nas janelas
Nenhum vaga-lume
Nenhuma estrela cadente
Tem dias assim
Em que a noite é profundamente
Escura

Noite assim
Em que esta ditadura parece
Não ter fim
Discurso prolixo
Conceitos datilografados
Para impregnar o inconsciente
Para aparentar verdades
Mas são lixos
Apesar de você rolar na vitrola
Já não se medisse
O cálice tem outro teor
O aguardente outro sabor
Não vem dos verdes canaviais
Dos músculos explorados
Dos latifúndios
Dos coronéis
Dos votos demarcados
Dos amargos tonéis

Há noite que esquecemos Calabar
Não conseguimos nos lembrar
Do Conselheiro
Das lutas do Cangaço
Apenas da alcunha que rascunha
Seu discurso
Do molusco do mar do sargaço
Do cunha o quê propunha
Esperando a noite escura passar
E um sol com raios de esperança
Nascer na terra de santa cruz
Quem sabe lá também
Em santa cruz de la sierra


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Amoras Derretidas


Um sorvete de amora derrete
Na minha mão
Esfria minha aliança
O sol ardente
O canto da cigarra
O morno verão
Transtorna o encarnado gelado
Que escorre entre meus dedos
Congela o céu da minha boca
Esfria meu coração
Depois fica a casquinha
Vazia
E a cereja de sabor artificial
E as interrogações da vida
Um gole de água
E as antigas mágoas
E o termômetro morto
De calor


sábado, 14 de novembro de 2015

Pedras que rolam na minha vida

No principio
Eram apenas pedrinhas no fundo das águas verdes
Do igarapé azul
Pedrinhas tecidas pelas correntezas
Geometrias perfeitas
Peixinhos coloridos como a vida
Mas depois vieram outras pedras
Pedra na baladeira que feriu o peito livre
Do pássaro
O vôo da liberdade
A pele do rio
A primeira topada
Pedras que atrapalhavam meu destino
E rolavam baixinho na minha vitrola
Amarela
Brilhavam no céu
Quebravam meus dentes
Umas valiosas
Outras apagadas
Aquela bem no começo
Algumas perigosas
Obstruindo
Rasgando
Bem no meio do ureter
No fim
Na vesícula
No meio do caminho
No meio do verso
No poema do Cabral
Do Drummond
No meu rim
Na fronte do gigante
Na dose de gim
Pedra de diamante
Pedras que me fazem esquecer
De mim
Das coisas ruins
E seguir adiante